Eurocentrismo – O que é? Visão eurocentrista no Brasil

Tradicionalmente, a Europa é colocada como referência do ponto de vista da história e das ciências em geral. É lá que ocorreram os principais acontecimentos que impactaram o mundo ocidental, assim como é de lá que muitos pensadores e cientistas desenvolveram teorias e inventos que influenciam a nossa vida nos dias de hoje.

Ocorre que o mundo não começou na Europa e há também muita história, eventos e pensadores em outras regiões do mundo que acabaram sendo esquecidos ou minimizados. E essa visão que privilegia o pensamento e a vivência europeia corresponde ao que se conhece como eurocentrismo, um conceito no qual abordaremos mais profundamente agora.

O que é eurocentrismo?

O eurocentrismo parte do princípio de que a Europa e tudo que a envolve são elementos centrais em comparação ao resto do planeta. Em outras palavras, tudo aquilo que não foi concebido ou vivido no Velho Continente não é relevante. Tudo relacionado a temas como economia, cultura, história e sociedade deve ser explicado a partir de seus conceitos.

Como bem sabemos, as referências que costumam ser contadas desde o princípio remetem aos gregos, romanos, ainda que outros povos, como os egípcios e persas sejam citados. Mas vale dizer que, especialmente a partir dos tempos da colonização, quando portugueses e espanhóis desbravaram os oceanos, a história tem sido contada a partir dos europeus. E ainda que se tivessem notícias sobre a América, África e Ásia, elas eram geradas a partir do ponto de vista europeu. Vários estudos colonialistas ajudaram a reforçar essa tese eurocentrista, desmerecendo outras visões.

A Europa como aspecto central na compreensão de visão de mundo decorre do Iluminismo. Isso é percebido por muitos autores, como Muryatan Santana Barbosa, que no artigo Eurocentrismo, história e história da África, coloca que o “eurocentrismo esteve presente nos textos clássicos que fundaram a historiografia moderna no Iluminismo, deturpando a visão dos europeus acerca dos demais povos do mundo. Estes eram vistos, então, na melhor das hipóteses, como crianças a serem educadas pelas luzes da Razão. Existe uma literatura recente que analisa esta visão em autores clássicos como (René) Descartes, (Immanuel) Kant, (Friedrich) Hegel e outros”.

Visão eurocentrista no Brasil

O eurocentrismo afeta e muito o próprio Brasil, que tem em seu ensino escolar muito da concepção gerada em outro continente. Isso também ocorre na própria sociedade, “contaminada” com a visão e práxis de outra civilização. Por exemplo, os livros de história brasileiros possuem muito uma visão ocidentalizada, em que predomina em boa parte de suas páginas os acontecimentos em terras europeias, especialmente se comparado a outros países fora da metrópole.  Enquanto isso, há pouca história brasileira, relacionada aos índios que aqui viviam antes, bem como sobre os vizinhos sul-americanos.

“O descaso pela história não-europeia perpetua-se em uma rede que abrange o ensino básico e o superior, os vestibulares, a pesquisa e a escrita de livros e, em última instância, a sociedade como um todo, em um processo de desconhecimento e desinteresse que se reforçam constantemente. Como nada é ensinado sobre o resto do mundo, é fácil concluir que ele não tem nada digno de interesse”, afirma o historiador Emannuel Henrich Reichert em Notas sobre o eurocentrismo no Brasil.

O eurocentrismo não é mais unanimidade

Boa parte do pensamento surgido a partir do período iluminista se focou na ciência e na racionalidade, pautando todo o projeto de desenvolvimento e a própria modernidade. Esses aspectos praticamente colonizaram o mundo das ideias a partir de então e dificultam qualquer tipo de percepção diferente. Contudo, hoje já há várias obras e autores que questionam essa visão e buscam difundir novos conhecimentos, pautados por outros caminhos e ideias que não estejam obrigatoriamente vinculadas ao ponto de vista europeu.

Teóricos nativos e pós-colonialistas, como o palestino Edward Said (1935 – 2003), que em 1978 produziu a obra Orientalismo, um marco nessa área, passaram a fazer indagações contra essa visão eurocêntrica a respeito dos outros povos e de sua cultura. Tais autores também foram responsáveis por apontar o eurocentrismo como uma característica marcante da maneira como se pensa o próprio planeta.

De fato, faz-se necessário ampliar as visões de mundo, buscando um pluralismo maior em outros conhecimentos e em outras vertentes, até porque, há vários ensinamentos sendo descobertos. Porém, não é fácil superar essa situação, afinal, a forma como o mundo é governado tem raízes no desenvolvimento da Europa, que ainda detém boa parte do poderio militar, econômico e político, o que facilita a imposição de sua cultura e visão de mundo.

Rodrigo Herrero Lopes

Jornalista com 15 anos de experiência, é mestre em América Latina pela Universidade de São Paulo (USP) na linha de pesquisa Práticas Políticas e Relações Internacionais.

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