Preconceito linguístico – O que é? Causas, Como combater e Exemplos

O preconceito linguístico é um tipo particular de preconceito cujo alvo é o modo de falar de alguém. Deprecia-se a fala da pessoa, sua escolha de palavras, sua língua, sua variação linguística etc. No Brasil, um dos principais linguistas a tratar do assunto é Marcos Bagno, um nome com o qual você se familiarizará ao decorrer da leitura deste texto.

Neste artigo, você verá o que é variação linguística, o que é preconceito linguístico, quais os principais disseminadores desse tipo de preconceito e que medidas devemos tomar para combatê-lo. Só aqui, no Gestão Educacional!

O que é variação linguística?

Primeiramente, é preciso compreender que as línguas são dinâmicas e passíveis de sofrer mudanças por conta de diversos fatores, como região geográfica, sexo, idade, classe social, grau de formalidade etc. Isso significa que não há apenas uma maneira de se falar, mas várias. É justamente a isso que se dá o nome “variação linguística”: a pluralidade da língua, que conta com diferentes formas (variações), estando ela em constante mudança.

Variações que fogem do padrão imposto pela gramática normativa (a chamada “norma culta”), ou seja, que desviam das regras usadas para se definir como se deve falar ou escrever, impondo noções como “certo”” e “errado”, são alvos do chamado preconceito linguístico.

O que é o preconceito linguístico?

O preconceito linguístico é, portanto, um tipo particular de preconceito em que ocorre a discriminação de uma determinada língua ou variante linguística em relação a outra(s). Esse tipo de preconceito é geralmente pautado na ideia de que há línguas ou variações linguísticas “melhores” ou “piores” que outras. O preconceito linguístico, portanto, trata-se de qualquer tipo de depreciação ou julgamento depreciativo a respeito da língua, da variação linguística ou da fala de alguém.

Por exemplo, considerar que as línguas europeias são superiores em relação às sul-americanas ou africanas é um tipo de preconceito linguístico.

Esse tipo de discriminação, entretanto, não acontece apenas entre línguas diferentes: ele também ocorre em relação às variações de uma mesma língua. Por exemplo, é preconceito linguístico considerar que o português falado no sul e sudeste do Brasil é “superior” ou “mais bem falado” que o português do centro-oeste, norte e nordeste, ou que pessoas com maior elevação social possuem um português mais rico e rebuscado que aqueles que vivem em camadas inferiores.

O que alimenta o preconceito linguístico?

Infelizmente, a escola foi por muitas décadas e frequentemente continua sendo, apesar dos avanços da sociolinguística, uma estimuladora do preconceito linguístico, passando ideias errôneas aos estudantes, como defende o importante linguista Marcos Bagno, tal como a ideia de que os brasileiros estão destruindo a língua portuguesa (e colocando, assim, o português europeu acima do brasileiro); a de que apenas o português de pessoas letradas é rico e que, por ser proveniente de alguém elevado socialmente, ele deve servir de paradigma para as demais variações; a de que a língua escrita é a “correta”, por ser organizada de maneira lógica, enquanto a língua falada é desorganizada e, portanto, suscetível a “erros” etc.

A escola, entretanto, não é a única responsável por disseminar esse tipo de preconceito: os meios de comunicação em massa, tais como os jornais, as revistas, o rádio, a televisão etc., bem como os próprios falantes do idioma, que julgam que a variação do português que falam é mais bonita, agradável ou bem-elaborada, também corroboram com o agravamento deste cenário.

“O círculo vicioso do preconceito linguístico”

Macos Bagno defende, em seu livro Preconceito Linguístico (2015, p. 109-118), a existência de um círculo vicioso, composto inicialmente por três elementos, mas que o autor posteriormente aumenta para quatro, que vive a alimentar o preconceito linguístico. Chamar de “círculo vicioso” significa justamente que um elemento alimenta o outro, de maneira ininterrupta e, aparentemente, infinita, fazendo o círculo do preconceito girar.

Esses elementos são:

  1. A gramática tradicional, que inspira, com ideias linguisticamente preconceituosas e elitistas, os métodos tradicionais de ensino;
  2. Os métodos tradicionais, que resultam em livros didáticos que compartilham o preconceito linguístico;
  3. Os livros didáticos, cujos autores fazem uso da gramática tradicional para criarem suas obras;
  4. Os comandos paragramaticais, compostos por livros, manuais de redações, meios de comunicação etc., que, ao invés de ajudar a combater o preconceito linguístico, reforçam-no direta ou indiretamente.

Como combater o preconceito linguístico?

Marcos Bagno apresenta alguns fatores a serem levados em consideração para a desconstrução do preconceito linguístico e quebra desse chamado “círculo vicioso”. São eles:

  • Reconhecer a crise do preconceito linguístico em que vivemos e desenvolver uma literatura que contribua com o combate a ela;
  • Mudar de atitude em relação à maneira como se enxerga a língua, passando a refletir sobre ela e deixando de vê-la como algo estático, valorizando-se as diferentes variações, inclusive o saber individual de cada falante, respeitando os diversos modos de se fazer uso da língua;
  • Rever a forma como se ensina a língua portuguesa, abandonando métodos tradicionais pautados no ensino da gramática normativa, de terminologias, nomenclaturas etc. e caminhar em direção a um sistema de ensino que promova o letramento constante e ininterrupto;
  • Reavaliar a noção de erro, passando a interpretar o que hoje se considera “erro de português” como um simples desvio da ortografia oficial, ou seja, diferenças ou alternativas de uso em relação à norma proposta pela gramática normativa; essa noção de erro parte, geralmente, da ideia de que a língua escrita deve servir como modelo para a língua falada, e é instituída por uma elite econômica e intelectual, que julga como “errado” tudo aquilo que desvia do instituído como “correto”;
  • Reconhecer a existência de conceitos como o de “adequação” e “aceitabilidade”, compreendendo que, em determinados contextos, devemos adequar a nossa fala/escrita às exigências da situação. Por exemplo, em uma palestra num congresso científico, deve-se optar por um português mais próximo ao considerado “adequado”; já em outros contextos, mais informais, como uma conversa entre amigos numa roda de bar, pode-se optar por um português mais informal, com gírias e outras marcas de informalidade; portanto, é imprescindível entender que a própria noção de “adequação” varia de lugar para lugar, de pessoa para pessoa, de contexto para contexto etc.;
  • Abandonar a chamada “paranoia ortográfica”, um comportamento comum entre professores de português, mas não apenas entre eles, que, ao pegarem um texto de um aluno, por exemplo, têm o impulso de procurar erros ortográficos em vez de se preocupar com o conteúdo do que foi produzido, interpretando que “saber ortografia” é o mesmo que “saber a língua” (o que não é verdade): enquanto a ortografia é artificial, sendo uma decisão política, a língua é natural e viva e, portanto, está sujeita a mudanças e variações;
  • Ter consciência de que todo falante nativo de um idioma possui competência sobre este e sobre a sua gramática, independe do grau de escolaridade ou da posição socioeconômica que ocupa, uma vez que todos conseguem se comunicar, construindo e interpretando frases significativas.

Alexandre Garcia Peres

Alexandre Garcia Peres, formado em Letras pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), gosta de arte, literatura, língua portuguesa, poesia e do seu gato.

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