Retornados da África – Agudás e Tabons

A escravidão africana foi um dos piores capítulos da história humana. Ao longo de quase quatro séculos, milhares de homens, mulheres e crianças foram levados à força do continente africano para uma vida de trabalho forçado no Novo Mundo.

No entanto, em alguns momentos, esse processo foi invertido, com escravos libertos retornando à África em busca uma vida melhor, diferente daquela que conheciam. Mas esses “retornados”, de fato, eram estrangeiros em uma terra que já não era mais deles.

Quem são os retornados?

Retornados da África

A escravidão ocorreu de forma intensa em território brasileiro, entre os séculos XVI e XIX. Na maioria dos casos, a viagem para o Brasil era um caminho sem volta. A grande maioria dos escravos nunca mais viu sua terra natal.

Mas em dois momentos principais, essa “regra” foi quebrada. O primeiro momento se deu após a chamada Revolta dos Malês, uma rebelião de escravos, de maioria muçulmana, ocorrida em 1836, na Bahia. Muitos escravos libertos foram forçados a deixar o país e retornar para a África.

O segundo momento se deu logo após o fim da escravidão no Brasil, em 1888. Esses escravos libertos que retornaram, seja de maneira forçada ou voluntária, na maioria das vezes, não voltava para seu local de origem. Por diversos motivos, acabaram por se fixar nas cidades portuárias do Golfo da Guiné. Eles ficaram conhecidos como Agudás e Tabons.

Agudás

Retornados da África

Agudás são os descendentes de comerciantes de escravos e escravos libertos do Brasil, que se estabeleceram, sobretudo, na região do atual Benin. Um dos pioneiros foi Francisco Félix de Souza, conhecido como Chachá, um comerciante de escravos que se estabeleceu na região de Porto Novo em 1788, tornando-se assessor do rei de Daomé (com se chamava a região na época) no negócio de escravos.

Por seus serviços, recebeu terras, onde criou uma espécie de comunidade para brasileiros, abrindo caminho para novos retornados.

Essas pessoas acabaram preservando nessa comunidade os costumes adquiridos no Brasil, como língua, culinária, religião católica, comer com talheres, etc. Com o tempo, passaram a ter maior integração com a sociedade local, introduzindo novas técnicas agrícolas e de construção civil.

Estima-se que, aproximadamente, 5% da população do Benin seja agudá, cujo nome vem, provavelmente, por causa do Forte São João de Ajuda, fundado pelos portugueses próximo da cidade de Porto Novo, onde a maioria deles se estabeleceu

Tabom

Os retornados que inicialmente se estabeleceram na região de Acra, atualmente Gana, ficaram conhecidos como “tabom”. A história que se conta a respeito desse nome se deve ao fato de que, por não falarem a língua local, respondiam a tudo o que lhes era perguntado com a expressão em português “tá bom”.

Os primeiros a chegar foram três traficantes de escravos, João Gonçalves Baéta, José de Moura e César cerqueira de Lima. A eles juntou-se, em 1853, Francisco Olympio da Silva.

Esses homens se estabeleceram em Acra como traficantes e comerciantes, criando comunidades que receberam muitos retornados do Brasil. A influência desses homens é notória. Por exemplo, a família de Francisco Olympio da Silva se espalhou por Benin e Togo, e seu neto, Sylvanus Olympio, foi eleito presidente de Togo em 1960, sendo assassinado em 1963.

Assim como os agudás, os tabom contribuíram para a sociedade local, ao utilizar técnicas aprendidas no Brasil e desconhecidas na região. Entre eles havia pedreiros, alfaiates, carpinteiros, ferreiros, escavadores de poços de água, profissões importantes e valorizadas que ajudaram esses brasileiros a se integrarem naquela sociedade.

Uma interessante curiosidade sobre os tabom era o fato de construírem casas feitas de alvenaria, em contraste com as casas feitas de sapé da população local.

Hoje em dia os retornados estão completamente integrados aos países em que vivem. Mas, ainda assim, muitos mantêm os costumes herdados dos ancestrais, como religião, música, culinária e sobrenomes portugueses.

Embora não seja recente o interesse da historiografia nacional sobre o tema, os trabalhos sobre o assunto ainda são escassos e, nesse sentido, mais historiadores têm se debruçado sobre essas questões. Afinal, é interessante saber que, mesmo dentro de um processo de escravidão extremamente duro, vários desses indivíduos conseguiram mudar sua condição e voltar para sua terra de origem – e mais, mantido uma certa brasilidade como elemento de identificação.


Umberto Oliveira

Umberto Oliveira

Bacharel em História pela Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP).

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